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Nigeriano usa palavras como ativismo ao publicar seu primeiro romance sobre o amor entre dois homens

Com um primeiro romance que narra um caso de amor entre dois rapazes, Ani Kayode Somtochukwu, de 23 anos, afirma um compromisso com a “resistência queer”

PorElizabeth A. Harris
Atualização:

THE NEW YORK TIMES - LIFE/STYLE - Ani Kayode Somtochukwu escreveu seu primeiro romance sem o benefício da internet ou mesmo de um computador. Ele rabiscou à mão em grandes blocos de notas brancos e depois o transferiu, toque a toque, para o celular.

Então ele o vendeu para uma grande editora.

O nigeriano Ani Kayode Somtochukwu é um homem queer que escreveu seu primeiro livro sobre a história de dois homens. Ser gay é ilegal na Nigéria e seu trabalho é uma espécie de ativismo. Foto:Stephen Tayo/The New York Times

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Esse romance, And Then He Sang a Lullaby (E então ele cantou uma canção de ninar), uma história de amor sobre dois rapazes na Nigéria, foi publicado por um novo selo da Grove Atlantic, lançado pela escritora e comentarista social Roxane Gay. Gay disse que planeja promover escritores de fora dos canais de publicação habituais, e Ani (na Nigéria, o sobrenome geralmente vem em primeiro lugar) é o primeiro autor do selo: um nigeriano queer da classe trabalhadora, cujo manuscrito, submetido sem um agente, veio de uma pilha de textos.

Ani tem 23 anos, sorri rápido, gargalha rápido e pede desculpas por fazer o resto de nós se sentir mal consigo mesmo.

“Ele é sábio para além de sua idade e também encantador”, disse Gay. “Você pode dizer que, embora ele esteja morando na Nigéria, onde é difícil ser gay, ele está vivendo uma vida vibrante.”

Transformação

Ani cresceu em Enugu, o segundo de cinco filhos de uma professora e um lojista que vendia artigos de papelaria e vales-presente em uma banca de mercado. Ele sempre foi um escritor, rabiscando histórias e poemas que compartilhava com seus irmãos e amigos, mas nunca considerou que escrever fosse uma carreira possível, em vez disso, estudou biologia aplicada e biotecnologia na escola. Hoje mora em Lagos, para onde se mudou para trabalhar no Nigerian Institute of Medical Research.

“Em certas classes sociais em que você cresce, quando você pensa em uma carreira, tem que se ater ao que é muito prático”, disse ele. “Ser um músico, por exemplo, ou ser um bailarino, ser um escritor - são coisas que você pode gostar, mas você realmente não pensa nisso como uma carreira.”

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Como se viu, no entanto, “escrever me tirou da pobreza”, disse ele. Hoje é seu trabalho em tempo integral.

And Then He Sang a Lullaby centra-se em dois jovens muito diferentes que se conhecem e se apaixonam na faculdade. August é rico, atlético e passa por hétero, enquanto Segun é extravagante, político, da classe trabalhadora e um alvo frequente - relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo são ilegais na Nigéria. O romance explora como as pessoas respondem de maneira diferente à homofobia e como o amor é possível mesmo em circunstâncias tão difíceis.

“É um romance sobre o amor queer e sobre a dor queer”, disse Ani. “Mas talvez o mais importante, é sobre a resistência queer.”

Ativismo das palavras

Ani se considera primeiramente um ativista e diz que sua escrita está a serviço desse trabalho. Ele descreve a organização de campanhas de apoio aos direitos LGBTQ e ajuda a arrecadar dinheiro para comprar a liberdade de amigos e estranhos que foram sequestrados e mantidos como reféns por serem gays ou trans.

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Ele também já foi alvo: agredido duas vezes, disse ele, detido pela polícia e ameaçado várias vezes. Depois de um protesto na capital da Nigéria contra a legislação que mandaria pessoas para a prisão por usarem roupas que tradicionalmente não se alinhavam ao gênero atribuído a elas no nascimento, Ani disse que teve que deixar a cidade repentinamente quando pessoas nas redes sociais disseram que ele e outros envolvidos deveriam ser mortos.

“Ele se assumiu muito cedo em um país muito perigoso e devo dizer que é realmente um milagre que ele tenha chegado até aqui”, disse uma de suas irmãs, Ani Uzoamaka Chinedu. “Kayode é uma criança de sorte.”

Enquanto estudava biologia na faculdade, ele também se juntou a um clube de escritores. Mais tarde, ele soube no bate-papo do grupo que o selo de Gay estava aceitando submissões e enviou alguns capítulos.

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Gay disse que foi atraída não apenas pela mensagem do livro, mas também pela força da voz de Ani. Quando ele procurou Emma Shercliff, a mulher que se tornaria sua agente, Ani já tinha uma oferta.

A maioria das editoras tradicionais exige que as submissões venham de agentes, em vez de diretamente dos autores para os editores, e é raro que um acordo de livro seja feito de outra maneira. É uma consideração prática, porque as submissões dos agentes já foram examinadas. Mas conseguir um agente é difícil, então essa configuração significa que muitos autores, mesmo que seu trabalho seja excelente, podem não conseguir colocar um manuscrito na frente de um editor.

Quando Gay começou seu selo, com o anúncio de que aceitaria submissões sem a necessidade de agentes, ela recebia 200 ou 300 desses manuscritos por mês.

“Exige muito esforço? Sim, e tive que contratar pessoas para me ajudar a enfrentar a pilha”, disse ela. “Mas estou feliz em fazer isso, se isso significa dar essa oportunidade.”

O adiantamento da venda do livro permitiu que Ani se mudasse sozinho para um apartamento pela primeira vez, com um lugar tranquilo para escrever. Sua irmã disse que ele também deu algum dinheiro ao pai para sustentar a família. Ani manteve os direitos africanos para que o livro pudesse ser publicado na Nigéria por uma editora local, tornando-o mais barato para os leitores.

Este mês Ani visitará os Estados Unidos para eventos relacionados ao livro, sua primeira viagem fora da África. Com seu perfil em alta, ele disse que não teme se tornar mais um alvo na Nigéria, afirmando que sua visibilidade lhe oferece alguma proteção, o que pretende usar para impulsionar ainda mais o que acredita.

“O que quero que as pessoas saibam sobre mim”, disse ele, “é que sou um ativista africano pela libertação queer que acredita que a África é meu lar, que é um lar para pessoas queer. Eu realmente acredito nisso.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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